Nutrição inteligente
 
Em entrevista a Vida Integral, especialista em nutrição da USP defende alimentação saudável, desmascara propagandas enganosas e enfrenta mitos.
 
A professora Jocelem Mastrodi Salgado já é conhecida por um vasto público que se interessa pelos benefícios que a nutrição traz para a saúde. Autora de cinco livros que ensinam como tirar proveito dos alimentos e das práticas do dia a dia para viver com mais saúde, a Dra. Jocelem lança agora Alimentos Inteligentes, coleção de trinta artigos sobre frutas e verduras e sua importância na vida e na saúde. “A vida fica mais leve e gostosa quando cuidamos melhor de nós”, diz a professora.
 
Pioneirismo
 
Titular de Nutrição Humana da USP, a professora tem no currículo 20 anos de pesquisa em boas práticas de alimentação. É autora de estudos que levaram à produção de suplementos com as mais diversas funções, desde a perda de peso sem regimes artificiais, a suplementos para repor proteínas em organismos idosos Comentando a importância dos alimentos funcionais, a Dra. Jocelem Mastrodi Salgado lembra que funcionais “são aqueles alimentos que, além de nutrir o organismo e matar a fome, ainda trazem algum benefício específico para a saúde”. A pesquisadora e sua equipe estão entre os primeiros pesquisadores no país a introduzir o conceito de alimento funcional e a investir em pesquisas. “Como conseqüência, eu e um grupo de especialistas fundamos a Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais – SBAF – e no ano passado organizamos o primeiro congresso brasileiro da sociedade”.
 
A Dra. Jocelem é a atual presidente da sociedade que congrega médios, nutricionistas e empresários do setor. A sociedade vigia e propõe regras que definem o que é alimento funcional e divulga os conceitos básicos para o público em geral.
 
Consciência e mitos
 
Faz parte das atribuições da sociedade o estudo de mitos e crenças populares referentes à alimentação e mesmo a defesa da população de propagandas enganosas. “Anos atrás alertamos para a propaganda infundada que se fazia colocando nas embalagens de óleo de soja a frase: Não contém colesterol. A verdade é que nenhum produto de origem vegetal contém colesterol”, lembra a pesquisadora.
 
Outra propaganda que aborrece a Dra. Jocelem é a que induz ao consumo de leite com ômega 3, quando se sabe que a quantidade desse elemento é mínima, sendo necessário o consumo de várias caixas de leite para beneficiar o coração.
 
Ao lado dessas ocorrências, comuns na mídia, somam-se informações sem cunho científico, como as propaladas virtudes da casca de maracujá que beneficiaria pacientes de diabetes. Nesse caso específico a Dra. Jocelem diz já estar obtendo resultados preliminares em estudos com ratos diabéticos.
Orientada pela Dra. Jocelem, uma equipe de estudantes de mestrado e doutorado vem trabalhando com frutas e legumes e sua relação com a saúde. A seguir alguns exemplos desses estudos, em resumo feito pela professora e liberado para Vida Integral.
 
Abacate e doenças cardiovasculares - Temos trabalhado muito na relação abacate e doenças cardiovasculares. Se antes ele era condenado por seus teores de gordura, agora vem sendo reconhecido por reduzir o colesterol ruim, o LDL, e aumentando o bom colesterol, o HDL.
 
 Milho,  repolho roxo, pequi e a degeneração da mácula ocular - Trata-se de doença nova, que ocorre em pessoas com idade mais avançada, provocada pela exposição aos raios ultra violetas e em decorrência do fumo. Ocorre com mais freqüência hoje porque está aumentando a longevidade. A doença provoca cegueira que não pode ser tratada cirurgicamente. Nossos estudos estão avançando na linha de que alguns alimentos conseguem repor as substâncias perdidas que provocam a degeneração. Os alimentos que estão apresentando melhores resultados são milho, repolho roxo e principalmente o pequi, de Goiânia.  
 
Estes três alimentos têm demonstrado ser excelentes coadjuvantes no tratamento. Tenho trabalhos de pesquisa que apontam para a redução do risco. Com 6,8 miligramas diários dos dois carotenóides, consumidos por meio de alimentos naturais, temos verificado a redução drástica no risco de ocorrência dessa degeneração e mesmo no aparecimento de cataratas.
 
 Manga e diabetes – Nossas pesquisas vêm mostrando que a maçã também reduz a glicose sangüínea diminuindo o risco de Diabetes. Este trabalho teve tamanha repercussão internacional que mereceu publicação no Plants Foods for Human Nutrition em 2004, importante veículo de informação científica de uma das maiores universidades da Holanda.
 
 Amora e controle de glicose sanguínea - Trabalhando com uma variedade muito diferente de amora, que cresce em poucas regiões do Brasil e têm apresentado resultados espetaculares no controle de glicose sanguínea, sendo possível alternativa substituta para diabéticos. Os trabalhos estão mostrando que o uso da fruta, se comparado aos medicamentos dados aos diabéticos, pode substituí-los. A fruta tem ainda o benefício de não precisar ser ingerido todos os dias, já que consegue manter por trinta dias o nível da pressão sanguínea. Estamos finalizando estudos para que ele possa no futuro ser disponibilizado em escala industrial.
 
 Arroz selvagem e redução do colesterol sangüíneo – Estamos avançando estudos com arroz selvagem. Ele é rico em tanino e vem demonstrando capacidade para reduzir o colesterol sangüíneo, com a vantagem de ter enorme quantidade ferro.  Com seu uso, nossas pesquisas indicam que ele é capaz de evitar anemia e, principalmente, doenças cardiovasculares. Doenças cardiovasculares são hoje a primeira causa de morte no Brasil, com  820 óbitos diários. Essa é uma realidade que pode ser mudada com alterações na alimentação.

Publicado por: Vida Integral