Descuido ou Má fé? 

Desinformação, descuido ou má fé. Quando a grande imprensa, desconhecendo sua influência junto ao público faz concessões a qualquer destas pragas, os prejuízos são notórios. Se o assunto for saúde, então as conseqüências podem ser irreparáveis para milhares e fica difícil relevar a irresponsabilidade. Há pouco tempo um desses veículos de circulação nacional escolheu o caminho da temeridade editorial. Veja o que uma leitora indignada respondeu.

Carta da jornalista Beatriz Medina à redação de Veja

Prezado editor:

Como colega jornalista fiquei realmente entristecida ao ler a matéria “Muita verdura, pouca vitamina”, assinada por Natasha Madov, publicada nesta revista. Quanta desinformação. Que coisa lamentável. A repórter, que suponho jovem, chama o vegetarianismo de “mania” que “ganhou impulso na última década”, como se fosse modismo recente ou passageiro — quando isso de “tirar a carne do cardápio” é tão antigo quanto a cultura humana.

Ademais, contrariando incontáveis estudos e até a posição da própria American Dietetic Association, associação americana de nutricionistas, afirma que tornar-se vegetariano “é uma atitude arriscada”, pois “pode ser um sintoma de distúrbios alimentares graves”, como anorexia e bulimia.

Ora, o fato de anoréxicos e bulímicos não comerem carne é circunstancial; nada tem a ver com o vegetarianismo propriamente dito. É como dizer que Elias Maluco é criminoso porque gosta de churrasco.

Minha cara Natasha, uma reles busca na Internet a levaria aos estudos que menciono acima. Afinal, creio que a colega saiba ler inglês. E os exemplos citados na reportagem não podiam ser mais tendenciosos. Afinal, alimentação incorreta existe no mundo todo, tanto no caso de quem não come carne quanto, principalmente, no caso de quem a come. Ou vocês agora vão querer me convencer que a dieta tradicional americana, com seus excessos de colesterol, proteína animal, açúcares e carboidratos refinados, flavorizantes, corantes e aromatizantes artificiais e quase nenhum legume, verdura ou fruta fresca é um primor de boa nutrição? O alto percentual de obesos, cardíacos e cancerosos naquele importante país não me deixa mentir.

Quanto ao estudo da Universidade Agrícola de Wageningen, por que a repórter não explicou como é que aquelas crianças e adolescentes eram alimentadas? Está na Internet, basta procurar. Eles eram mal alimentados, sim, e não só por não comerem carne. Sua alimentação era absurdamente restrita, com níveis mínimos de proteínas, carboidratos, gorduras e alimentos crus. Nestas condições, mesmo que comessem alguma carne desenvolveriam as deficiências percebidas pelos pesquisadores. Só posso creditar à ignorância (para não dizer má-fé) a omissão das condições reais do estudo.

Não vou nem citar a distorção das palavras de Marly Winckler, pessoa internacionalmente respeitada no meio e que tenho a honra de conhecer. Só isso já configura um ato de má-fé passível de sanção.

É uma pena que a revista que, ao nascer nos anos de chumbo de nossa história brasileira, teve tamanha importância preste-se hoje a um papel desses — infelizmente, esta triste matéria não tem sido a única a exibir desinformação, tendenciosidade, falta de espírito jornalístico. Espero, para o bem da saúde do povo brasileiro, que a publicação se retrate.

Maria Beatriz de Medina, jornalista, Rio de Janeiro, RJ.