O INCRÍVEL PODER DOS CHÁS
 
Dizem que no mundo todo se bebe mais de um bilhão de xícaras de chá por dia. Culpa dos orientais, que não dispensam a bebida. Pudera, além de aquecer corpo e espírito, os chás têm efeitos benéficos para uma porção de males. Até mesmo os cientistas andam se ocupando em conferir as propriedades de vários deles. Como o chá verde, que os pesquisadores suspeitam possuir propriedades anticancerígenas. Além de um alto teor de flúor, efeitos antiinflamatórios, de fortalecimento dos vasos sangüíneos e do coração.
 
A coordenadora do Qualivida, entidade que presta consultoria em medicinas não convencionais a diversas empresas de porte, Márcia Luvizoto, conhece bem os poderes do chá verde. “Ele foi muito usado pelas altas castas e elite do Japão, onde marcou a época imperial em meados do século passado, e também na China. Seu prestígio era tanto que o presidente da Sociedade Botânica Francesa, no século 19, resolveu estudá-lo e terminou sendo responsável por sua introdução e difusão pela Europa”, conta, embora seja mais favorável aos exemplares da flora brasileira.
 
Todos os poderes da alface - “Os nossos caboclos, descendentes dos africanos que trouxeram para o Brasil muito de seu conhecimento sobre ervas, difundiram seu uso. O mate é um bom exemplo. É ótimo contra má digestão, ácido úrico e problemas nas vias urinárias”, diz. Márcia Luvizoto cita diversos outros exemplos: chá da terra, ou do mato, mais conhecido no norte, Pernambuco e Alagoas, de folhas brilhantes e caule avermelhado, e bastante apreciado por seus efeitos calmantes e diuréticos; chapéu de couro, que também contém tanino e possui ainda níveis de iodo que ajudam a evitar o bócio.
 
Até mesmo a alface, descobre-se, atua em todo o sistema nervoso e, por isso, é um excelente calmante e analgésico; abacaxi, cuja casca tem bons níveis de vitamina C e insuspeitadas propriedades de limpeza da pele contra cravos e espinhas, além de melhorar gargantas inflamadas. Não é por acaso que os pesquisadores se debruçam também sobre diversas plantas. O quebra-pedra é uma delas, alvo de estudos em várias universidades brasileiras, e mesmo estrangeiras; e a unha-de-gato, outra. Como ela é conhecida por fazer aumentar a imunidade, estuda-se a possibilidade de se extrair seu principio ativo para formulação de medicamentos contra o câncer.
 
Embora simples, preparar chás exige alguns cuidados. Primeiro, é bom saber que folhas e flores se fervidos por mais que cinco a dez minutos perdem seus princípios ativos. Logo, o melhor é fazer com elas infusões: uma colher de sopa de folhas lavadas, secas ou frescas, é colocada numa xícara e sobre ela, despeja-se um copo de água fervente. Depois é deixar tampado por uns dez minutos, antes de beber.
 
Já as decocções são feitas deixando-se raízes, cascas ou talos de molho por cerca de 30 minutos, antes de levar ao fogo, por período que variam de cinco a 30 minutos. "É o caso do gengibre, que auxilia na digestão de gorduras, e acelera a eliminação de toxinas. Além de seus conhecidos efeitos antigripais", acrescenta a bióloga e especialista em alimentação energética Renate Tirler, outra interessada no poder curativo das plantas.
 
Até mesmo o agrião, diz ela, por atuar no meridiano do pulmão, é ótimo contra tristeza e melancolia. Da mesma forma, o quebra-pedra, além do uso consagrado, também é bom auxiliar em casos de síndrome do pânico e fobia. Isso porque, segundo a medicina tradicional chinesa, atua sobre o rim, que, funcionando mal, ativa sentimentos como o medo.
 
Na medida certa
 
Outro cuidado é observar medidas. Mesmo produtos naturais podem ter efeitos tóxicos, quando em excesso. Márcia Luvizoto ensina que uma colherzinha de café equivale a 2g de folhas secas, ou 4g de raízes; uma colher de sopa contém 5g de folhas secas ou 10g de raízes; enquanto um punhado tem mais ou menos 35g de folhas secas e serve para preparar meio litro de chá. Adoçá-los, para a terapeuta, é quase heresia. No máximo, uma pequena colher de mel. De preferência, puro, para melhor aproveitar suas qualidades.
 
Quatro a cinco xícaras são mais do que suficientes como dose diária. Quantidades acima daí são desaconselháveis. Márcia enumera diversos exemplos: quebra-pedra demais torna-se purgativo; chá de gengibre é desaconselhável a quem tem problemas nas vias urinárias; o de alho pode irritar o estômago, assim como o boldo.
 
Alecrim em excesso pode levar a uma gastrenterite; muito chá de eucalipto pode provocar vômitos e náuseas e até mesmo o cabelo de milho não deve ser consumido por quem tem inflamação de bexiga, acrescenta Alba Valéria. Sem contar que gengibre e canela, que os orientais classificam como yang, devem ser evitados por gestantes. Quentes por natureza, aquecem o útero e causam agitação no feto, o que pode resultar em contrações e até mesmo em aborto.'
 
Calor demais? A resposta é chá morno
 
Os chineses, aliás, costumam dividir os alimentos entre os que, de acordo com sua natureza, provocam calor ou frio. Seu hábito de tomar chá morno debaixo de sol quente causou enorme estranheza nos portugueses que chegaram a Macau. A explicação, segundo a nutricionista, é simples. “Líquidos gelados em dias de sol forte fazem aumentar a diferença entre a temperatura interna do corpo — que baixa com os gelados — e a externa. Alimentos e líquidos mornos tendem a reduzir este desequilíbrio e a tornar mais confortável suportar o calor. Vale o mesmo para épocas de frio externo. Sempre tem que ter um chá ou alimento refrescante para não aumentar demais a diferença entre o interno e a temperatura ambiente”, explica.
 
Da mesma maneira, líqüidos gelados após refeições reduzem a temperatura interna e retardam a digestão, enquanto líqüidos quentes facilitam o processo. O ideal é que sejam tomados 30 minutos depois de comer. Segundo Alba Valéria, quando se trata de sabedoria popular, os usos que se faz das ervas são mais ou menos os mesmos de um lado ou outro do planeta.
 
O quebra-pedra, por exemplo, é extremamente eficaz para tratamento de problemas das vias urinárias. Tanto que já se está extraindo um floral dele, o Phyllantus. E suas propriedades não quebram apenas cálculos renais. Também podem ser usados para quebrar resistência e rigidez emocional, entusiasma-se a terapeuta Macia Luvizoto.
 
Outro cuidado que se deve ter é com a associação das folhas. Afinal, uma erva tanto pode reforçar quanto enfraquecer a ação de outra, ou ainda ter efeitos antagônicos. Logo, o melhor mesmo é não se aventurar em misturas sem conhecer as propriedades e possíveis resultados da combinação.
 
Chás são ótimos e seus efeitos terapêuticos melhores ainda. Mas convém observar se as folhas são de boa qualidade, se não têm fungos ou mofo. Também se desaconselha o uso prolongado de determinada erva. Isso porque o organismo se acostuma e elas param de fazer efeito. “Costumo receitar para meus pacientes por 30 dias. Se o resultado for bom, repete-se por outros 30 dias e depois troco a receita”, diz.
 
Receitinhas para todos os usos
 
A terapeuta holística Márcia Luvizoto ensina algumas formas de se aproveitar melhor as ervas.
 
Alface - Derrame uma xícara de água fervente sobre 3 folhas de alface, e terá um excelente chá calmante e analgésico. É bom para amenizar dor de cabeça.
 
Abacaxi - A casca de um abacaxi bem lavada e posta de molho em água mineral durante toda uma noite. Levada ao fogo no dia seguinte, sem deixar ferver para evitar que se perca a vitamina C. Serve para tratar inflamações de garganta, melhorar cravos e espinhas.
 
Hortelã - 2 colheres de sopa para meio litro de água. Deixe ferver por 10 minutos para liberar os princípios ativos. Coe antes de tomar. Bom para fazer expectorar e evitar muco. Também melhora cólicas menstruais, cálculos biliares e palpitações. “O que poucos sabem é que também é excelente para tratar casos de impotência masculina que sejam de origem emocional.”   Alguns problemas e os chás que os atenuam :
 
Ansiedade- chá de capim-limão (Cymbopogon citratus stapli) com gotas de limão e mel; chá de erva-cidreira (Melissa oficinallis)

Cálculo renal- decocção de palha de milho (Zea mays); decocção de raiz de salsa (Petroselinum sativam)

Chulé - infusão de louro (Laurus nobilis) para banhar os pés.

Cólicas intestinais- infusão de hortelã (Mentha piperita); infusão de aniz (Pimpinella anisum)

Má digestão- chá de carqueja (baccharis genistelloides)

Mau hálito- infusão de eucalipto (Eucalyptus globulus); infusão de alecrim (Rosmarinus officinalis)  
Hemorróidas- chá de dente de leão (Taraxacum officinale); decocção de bardana (Arctium lappe)
 
Fonte: (Vilma Homero, "Planeta Vida", 23/10/2000)