O
Emprego de Alimentos Funcionais na Prevenção
e
Controle de Doenças
Vários fatores tem sido
relacionados ao aparecimento de doenças no organismo humano, dentre eles, a
herança familiar, o fumo, o sedentarismo e o stress. Entretanto, a alimentação
é talvez uns dos mais importantes, havendo uma estreita relação entre o
alimento que nós comemos e a nossa saúde. Os maus hábitos alimentares
como o excessivo consumo de gorduras, principalmente saturadas, excessivo
consumo de açúcar e sal e, ainda, o baixo consumo de amido e fibras dietéticas
tem originado elevada incidência de doenças crônico degenerativas entre
as pessoas, especialmente doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e
obesidade. Atualmente, essas doenças são responsáveis por cerca de 70-80%
da mortalidade nos países desenvolvidos.
Como exemplo da importância
do papel da dieta na nossa vida podemos citar o fato de 1/3 dos casos de câncer
estarem relacionados aos maus hábitos alimentares e que os mesmos são
responsáveis por 90% dos casos de obesidade. Mas não é só isso.
Estima-se hoje também que mais de 30% da população brasileira apresenta
altos níveis de colesterol (>200mg/dL), sendo que taxas acima de 240mg/dL
aumentam em duas vezes o risco de se sofrer um ataque cardíaco.
Além da relação com as
doenças crônicas, há fortes evidências também do papel da dieta em
melhorar a performance mental e física, retardar o processo de
envelhecimento, auxiliar na perda de peso, na resistência às doenças
(melhora do sistema imunológico), entre outros.
Por todos esses motivos, a
frase "Let food be the medicine and medicine be the food" (que
resumidamente quer dizer faça do alimento o seu medicamento) exposta por
Hipócrates a cerca de 2500 anos atrás, está recebendo interesse renovado.
Mais do que nunca as pesquisas e os estudos estão mostrando o quanto é
importante o papel de certos alimentos na nossa vida. Orientar as pessoas a
comerem o alimento mais adequado e em quantidades adequadas tem sido uma
constante em vários trabalhos científicos.
O papel dos alimentos
funcionais
O fato de que os alimentos
podem influenciar a saúde e o comportamento das pessoas, está cada vez
mais claro neste final de século. Além de fornecer uma fonte de calorias e
nutrientes para nosso organismo, nos últimos 10 anos alguns alimentos tem
ganhado uma dimensão extra. Além de satisfazer nossas necessidades
nutricionais básicas, alguns alimentos podem apresentar um benefício
fisiológico adicional, que geralmente é determinado pela presença de
componentes ativos. Esses componentes ativos ao atuarem sobre nossos
sistemas imunológico, endócrino, nervoso, circulatório e digestivo,
contribuem para a manutenção da nossa saúde e prevenção de uma ampla
gama de doenças. Esses alimentos recebem hoje a designação de
"alimentos funcionais".
Os alimentos funcionais são
geralmente classificados desta forma:
1. Alimentos in natura. Vários
alimentos naturais são hoje considerados importantes na prevenção e
controle de doenças. Como exemplo podemos citar:
·
soja
(componente ativo = isoflavonas)
·
tomate
(componente ativo = licopeno)
·
crucíferas:
brócolis, couve flor, repolho, etc. (componente ativo = glicosinolatos) -
alho (componente ativo = alicina)
·
aveia
(componente ativo = b - glucana)
·
peixes,
óleos de peixes e certas algas marinhas (componente ativo = ômega-3)
2. Alimentos processados sem
adição de ingredientes funcionais. Alimentos processados pela indústria
com o próprio alimento in natura que contém componentes ativos e é
considerado funcional. Exemplos:
·
cereais
de farelo de aveia (ricos em b - glucana)
·
alimentos
a base de soja, carne de soja, tofu, tempeh, etc (ricos em isoflavonas)
·
molho de
tomate, suco de tomate, etc (ricos em licopeno)
3. Alimentos processados com
adição de ingredientes funcionais. Alimentos processados pela indústria
onde são adicionados componentes ativos de outros alimentos funcionais.
Exemplos:
·
leites e
iogurtes enriquecidos com ômega-3 existente em peixes e algas
·
margarinas
enriquecidas com fibras existente em cereais, gomas, etc.
O papel dos consumidores
É consenso hoje que a
maioria das pessoas gostariam de consumir dietas mais saudáveis, mas
muitos, entretanto, querem fazer isso sem mudar seus padrões alimentares.
Por isso é que atualmente observamos no mercado uma grande quantidade de
alimentos com características nutricionais alteradas, mas com atributos
sensoriais sem mudanças. Um exemplo disto são os produtos
"lights" (com menos gordura) e alimentos fortificados
(enriquecidos com vitaminas e minerais).
O interesse por uma alimentação
mais saudável por parte dos consumidores vem crescendo ano a ano. É cada
vez maior o número de pessoas que acreditam que os alimentos podem ter um
impacto importante em sua saúde. Por isso, o maior desafio dos
pesquisadores e da indústria de alimentos funcionais é proporcionar
conhecimento aos consumidores acerca de tais alimentos específicos. Embora
o consumidor esteja mais informado hoje em dia sobre a importância da
alimentação em suas vidas, eles não sabem exatamente como os alimentos
funcionais diferem dos outros produtos convencionais, o que eles podem
oferecer para sua saúde ou que estes produtos podem ser consumidos como
parte de suas dietas sem haver a necessidade de supervisão médica.
Os pesquisadores e a própria
indústria alimentícia têm intensificado a pesquisa e produção de
alimentos funcionais pelas seguintes razões:
·
Os
consumidores querem prevenir, preferencialmente do que curar doenças;
·
Os
consumidores querem diminuir os gastos médicos;
·
Os
consumidores estão mais cientes da ligação entre saúde e nutrição;
·
Os
consumidores querem envelhecer com saúde (qualidade de vida);
·
Os
consumidores querem neutralizar os danos que o meio ambiente causa como
poluição, microorganismos e químicos na água, ar e alimentos;
·
As evidências
científicas sobre a eficiência dos alimentos funcionais estão cada vez
mais crescentes.
O papel da indústria de
alimentos
A indústria de alimentos
tem desenvolvido e introduzido um grande número de produtos alimentares
que, de um modo ou de outro, são supostamente mais saudáveis e mais
nutritivos do que os produtos alimentares convencionais. Entretanto, em
muitos casos é preciso ter cuidado. Muitos alimentos que estão chegando às
prateleiras dos supermercados com várias alegações de saúde (por
exemplo, que ajuda no controle do colesterol) muitas vezes não se prestam
para tal. Precisamos ficar mais atentos e informados para podermos discernir
o bom alimento funcional daquele que simplesmente contém o componente ativo
em tão pequena quantidade, que muitas vezes o consumidor precisará
consumir litros ou quilos do alimento para usufruir dos seus benefícios.
Portanto, o papel da indústria
alimentícia hoje, diante de tão grande expectativa por parte das pessoas,
é tornar acessível a todas elas alimentos que quando consumidos em
pequenas quantidades tragam benefícios à sua saúde. Ao mesmo tempo, essa
mesma indústria que produz e comercializa deve investir parte de seu
capital em pesquisa, de forma que todos atributos de efeitos ou propriedades
benéficas alegados no rótulo possam ser realmente demonstrados.
Não tenho dúvidas que
quando isso ocorrer, o que veremos nas prateleiras serão alimentos sérios,
que realmente cumprem o que alegam no rótulo. A partir de então, mesmo
pagando mais caro pelo alimento funcional em questão, o consumidor poderá
ter a certeza de que não está sendo enganado, ao contrário, só estará
trazendo benefícios a sua saúde. Com a conscientização de todos, indústria
e consumidores, o futuro do nosso país será um batalhão de pessoas saudáveis,
livres do câncer e de outras doenças que nos aterrorizam neste final de século.
Dra. Andrea Dario Frias -
Coordenadora do Centro de Pesquisa Sanavita
